Estrela no Vazio Entupido

agudo desespero

muita coordenação e pouca ação. eu tô sempre medindo tô sempre operando, tô sempre querendo saber,  jogar. Olho, observo, reservo pra mais tarde.Eu não vou ficar ali, olhando pra aquilo. Eu resolvi que escrever vai fazer a dor passar. Afinal é quando fecho os olhos que as coisas sem compreensão vem com força. Escrever é coordenar pensamento. É saber que pra além de qualquer coisa EU, VOCÊ, EU e NÓS, ELES...qualquer uma dessas pessoas no final se resumem a eu e Só. Só saber que eu tô só, com tudo isso que me ensinaram. Porque todas essas pessoas existem e me observam e me sentem e me querem ou não. Existe. E eu quero agradar.Eu sou ego, eu sou egoísta eu faço o que acho certo. EU EU EU EU EU EU EU faço o que EU  é certo...Eu cuido do que é meu... Eu tenho tantos EU eu já EU basta EU eu ...
Tenho tantos amigos! EU + VOCÊ= 1000 PARANÓIAS. Eu me consome. EU me come. EU  e todo mundo MUDO. Absolutamente nada existe. é como um simples reflexo que eu passo, ou cruzo ao andar apressada nas ruas, sem bassula. Fraga? Eu levo mesmo a serio essa parada de egoísmo. (minha mão não para de tremer). Há um sapato na minha garganta.
 Eu com medo do escuro. Eu ouvindo os barulhos da noite. Eu de mochila nas costas entrando na escola. eu atravessando a rua em silêncio. eu não faço falta. Eu só faço fala. Marcela dizendo que quer seguir em frente. Eu me situando do outro lado. Eu esquecendo e sentindo sempre ao contrario. Eu bolo de chocolate na mão. Eu recalcada. Eu obsessiva. Eu culinária. Eu palavra grossa.
Pra que eu não entenda mesmo. Pra quem quer  escrever esperando agradar, um caminhão de merda no domingo.
Obrigada.
Tenho vontade de dançar o desespero.

HONEY WHITE

Aconteceu.e é!  olho virado para o outro  são segredos de pupila e retina. sorrisos e abraços. e agora nenhum contato...é melhor não pensar. PO! honey! como você podia ficar? eu aqui ouvindo um jazz triste. uma alegria pobre e vaidosa. incrível. você podia ter ficado. como muitos outros que não saíram. porque a morte é só pra quem está vivo! HÁ! matamos a charada! essa piada camuflada. é! tem coisa que não é pra ser entendida. essa minha mão tremendo.
Tá bom! já podem parar de me falar coisas. uma outra porta se abriu mesmo. o labirinto e a minha boca seca.  o tempo e o espaço. mentira! o que tem mesmo é o corpo! milimetricamente projetado. labirinto. pois bem, talvez você podia ter ficado. aqui sobrou um desejo só. eu me vi língua e pele, instrumento de minha própria paz...mas sobrou um mistérios de pedras: trocamos o perfume do carbono pela forma de um diamante.


algumas coisas que arrecadei por ai

ano novo casa nova gato novo vontade velha
to me adaptando. aqui tem bastante espaço e eu tô me organizando.
Que a poesia volte a habitar minhas mãos. Deixai que a quietude seja o vazio de onde tudo se cria.
Contato com a natureza, com o ser humano, sem medo, sem mascara, e ainda cheio de mistérios que ainda há de pintar por aí.
Eu preciso da minha solidão só porque sei que não estou sozinha. Eu preciso do meu silêncio só porque sei que há um coração pulsando. Eu preciso que você me toque, que o meu corpo e o seu desenhem a musica pelo espaço e que o tempo passe devagar. Eu preciso que você sinta, que acalme, e que exploda em euforia quando tudo se tornar parte de você, como um DNA encrustado em cada célula.
Eu preciso ouvir as estrelas, preciso que a nuvem passe e anuncie boa viagem, pois eu voarei.

de médico e louco, todo mundo...

Cada louco com sua mania e é louco se reconhecendo. Tava eu no PAM - Pronto Atendimento - sessão de Raio X. Estranho! as pessoas que atendem lá não usam roupa branca. São gente "normal", sei lá... Sei que tava sentada, com um livro na mão, quando ela disse alguma coisa que eu nem entendi mas respondi "é" e sorri. Um sorriso é uma pequena chave. Ela continuou:
- Ta lendo é? ministério da cultura...Se fosse minha irmã tava lendo o Código Civil.
Comecei a ficar atenta ao que ela dizia. Tinha também um velho que falava sem parar do outro lado da sala, aquele papo saudoso de idoso, e a sala era pequena, todo mundo ouvia qualquer sussurro.
- Veio do que? Circular?
- Carona com meu pai...mas depois vou voltar de circular.
- Eu também vim com o pai... Tô acostumada a andar com o pai. Sou o peso pesado da família. Eu pesava 110 quilos, mas agora to com 80. Falei pro pastor que agora vou pedir pra Deus pra parar de emagrecer, já ta bom assim.
- Eita! o que você fez pra emagrecer tanto assim?
O médico trocou ou diminuiu os remédios que ela tomava pra epilepsia. Imagino que ela deve ter um monte de remédio, também confessou que já tomou todos de uma única vez...
Quando falava do Dr. X usava um tom manso, cantado, como quem busca um colo. Sabia que pra qualquer coisa que ela sentia teria um remédio. Entendi tanta coisa ali... dependência da doença, o poder que os médicos tem na vida das pessoas vulneráveis como ela. "Conheço isso aqui de olho fechado". Patricia, o nome dela, quando perguntei ela disse empolgada e me estendeu a mão num gesto charmoso "prazer!!"
Ela já foi mandada pro CAPS, já aceitou ser internada pra que não chamassem o bombeiro ou a polícia e o Samu, " esses não aguentam mais ver a minha cara" - imagino que ela já saiba o que é sair de casa amarrada...Falava de tanta coisa, mas principalmente que tudo que ela precisa (e o mundo inteiro) é de amor. Sabe como ela se diverte? Jogando truco na internet. Lá ela conhece pessoas e consegue conversar com o sexo oposto. Aprendeu olhando a irmã jogar, e as vezes passa o MSN pros caras que parecem legais e imagino que deve conversar mil coisas, a ponto da pessoa do outro lado  mandar uma dessas pra Patricia "você é louca" e sumir no mapa. Tudo que ela precisa é de umas carícias, um abraço quente, um ombro pra encostar. Quem não precisa disso? é todo mundo louco mesmo.  Tá com 25 anos e cuida da casa. Antes de entrar eu escutei ela falando: "não tô com pressa não. A minha roupa ta toda lá pra lavar, meu feijão pra cozinhar". Sarcástica. Falava pra quem será? Ela disse  que perto dos homens ela trava, não consegue falar. "sabe quando você tem tanta coisa pra falar que não sai nada, fica tudo aqui ó" - e apontou a garganta. Logo ela que gosta tanto de falar! Fomos juntas de volta pra casa.. Assim que ela entrou no ônibus puxou conversa com uma senhora que sentava no banco de trás.
Contou também que vai voltar a estudar, ia fazer EJA, igual ao pai dela  que perdeu os dedos numa serra circular e voltou a estudar aos 59 anos - "O pai ia fazer o quê? Acha que ele foi burro por voltar a estudar? Ele ia fazer o que sem mão?" E todo mundo toma remédio na família, pra alguma coisa psicológica, "ou morre de câncer".
-11 do 11 de 2011. É o dia que a gente vem buscar o exame.Olha só! é o fim do mundo mesmo!
É Patricia, é o fim, um dia isso vai acabar. Vai que do nada começa a chover flores cheirosas e do céus descem anjos embriagados e bailarinos, todos nus. E a gente também, as vestes arrancadas, a vergonha roubada para sempre e entramos na ciranda celestial pro infinito.
O que tenho são livros não lidos
essa sensação de ser um feto abortado
esse saber  que já se passou tempo demais
essa vontade de que as paredes se fechem
uma inocência que as vezes se perde na ignorância
tenho também  melodias mudas
e mudas mortas
talvez haja uma semente
regada a água salgada

Monogâmia



Uma coisa que não tem começo. Essa explicação que não tem porque não. É invasão de um horizonte que quase se pode tocar com as mãos, feito um domingo que se auto representa. Palavras que querem ser. Quase solidão.

Uma parte da questão se resolve, outra se envolve. Palavras se chamam, anunciam, reclamam ...

Entre tanta gente tão sozinha. É o que alguma parte de mim mesma pensa.
A mesma que se pergunta "o que eu fiz de errado". Sofro de amor, eu sei. E tem a outra parte que pensa: "será assim que nascem os assassinos?"

Já disse que meu amor ainda é cristão. Eu não mataria ninguém.

Outra afirmação que dá as caras na sequencia é: o fim de todas as coisas é acabar e se torna redundante dizer que qualquer coisa tem seu fim.

Armada até os dentes. 
Não ta adiantando escrever. Saudade, falta...vazio. 
Tem nome, tem corpo, tem até apelido. E não é saudade. É vontade. Desejo. Anseio. É meu corpo que se perde. As palavras que se prendem não são suficiente. 
De repente o cheiro e o gosto me invadem. Me pedem: vá se abandone, Dama, viva. Quem tem corpo tem que ter coragem. Sua presença se apresenta e me confunde. Me tira daqui. 
Trago o que tá por dentro, tencionando os músculos, tornando os passos rápidos e pesados, olhos cansados buscando uma paisagem vazia. 
Não escrever não vai fazer a dor passar. 

Tem sempre um encontro, as ruas são as mesmas desde que isso aqui se formou. Há um comprimento, um olá e um sorriso amarelo.E há sempre essa parte de mim que foge ao abraço e tem a outra parte que procura por você nessas ruas repetidas, nos halls de entrada, nos bares da cidade. Procura, acha e desvia. Cada resposta é como um golpe sem esquiva. Quem perdeu fui eu, mas não é essa a questão: perder ou ganhar. O lance é que eu tomei algumas decisões, disse um milhão de coisas e não sei se concordo com todas elas, mas o dito tá dito e não pode ser revogado com mais palavras.Tudo que existe é ação. 
Vocês estão vivendo sua vida juntos e sorrindo com sinceridade, caminhando abraçados, não, saltitando pelas esquinas. Os conselhos que recebi foram errados e talvez eu tenha dito mais coisas na busca de preencher o vazio das perguntas do que trazendo qualquer resposta.Aquilo tudo estava ridículo.
É nessas horas que a gente deve voltar pra casa e ser forte pra se olhar no espelho.

“Aguentar a barra de ser quem tu és”.

Elas, sempre elas, elas sabem mais de mim do que eu mesma.Ouço coisas como um mantra no ouvido: “vai, continua lá então escrevendo sobre solidão, sobre não saber quem você é, é mais fácil”.  Disse que sairia. 
Meia saída não é nem entrada. Tenho que acabar com isso.
Não quero mais ter noticias de vocês, não quero mais ouvir o som de sua voz, não quero olhar nos olhos, não quero saber o comprimento do seu cabelo.
Eu to ficando com ódio do mundo! 
Eu to ficando repetida. Nunca vão saber o tamanho da ferida. 
Ficou tudo assim cinza e enfumaçado e eu não consigo destapar os olhos, nem sentir nada que não seja “eu não faço parte disso”. 
E tudo tem mania de ser tão simples, no final acaba sendo tão ridículo. 
No dia em que você foi  embora eu fiquei com raiva por não ter feito de tudo pra gente ficar  junto, mesmo que não fosse só a gente...

“quem não te conhece que te compre”. 

E você disse que era eu quem arranjava o problema. Seria simples, hoje ela, talvez amanhã eu. Eu repetia, suavemente: me ensina me, me fascina. Me dá um pouco do seu tempo. Exclusivo. Não precisa de muito, mas tem que ser nosso e só. Me ensina? Me aprende em mim? 

Aprendi sim!  Egozista! 
Aquele que goza com o próprio ego. É isso. Não sei se me conheço ou se me esqueço.

Vai vivendo, minha filha, vai vivendo. 

Eu to sofrendo...Sei que vou sentir saudades e essa saudade vai se transformar... Tanta crise, tanta confusão pra entender que a merda toda já tava aí antes da gente e que a gente que veio, foi mesmo pra  fazer a diferença e assumir as consequências dessa transformação. A força ta naquele que acredita e se junta, se joga.Te olhar nos olhos me fez ver coisas desse tipo. 

Agora to sentido os (de)efeitos de um passado bem próximo e apressando o futuro. É assim que a humanidade sofre, sem desculpa ou justificação. Ser mulher tem dessas coisas, dessas faltas, dessa vontade sem nome, ou com sobrenome e tudo mais, essa coisa de amor pra dar. Menos né, nem tão amor assim.
Ou é?
O sexo...
Uma transa como um momento de devoção e louvor ao corpo, a matéria que forma a alma...é assim que se cura. 
Aqui só tem um monte de palavras enfeitando os sentimentos e eu gosto de escrever. Palavra também é ação. Pelo menos é o que eu quero acreditar.
Espero que quando a gente se encontrar eu já tenha me libertado das mentiras que o mundo me conta! 

Era pra ser outra coisa

um palco cheio de coisas, garrafas, sapatos, velas, capacete, luz de natal, roupas, uma tela branca ao fundo... só pra exemplificar, sem qualquer pretensão de criar uma imagem fidedigna do que estava rolando lá naquela atmosfera. o teatro lotado, um domingo frio e o hall de entrada cheio de gente. atrasado pra manter a tradição do nosso teatro municipal. a canção, um pouco desafinada em que toda a equipe cantava uma coisa que falava de chuva. entrada. o publico no palco em cima das arquibancadas, não coube todo mundo, gente sentando no chão e aos redores. apertados. "nem todo signo tem seu significado". um carrinho de mão gigante em que um homem carregava três pessoas que sorriam com os olhos, um olá fraterno ao publico que aguardava, ou um convite sensual. Tempo.  o tempo de cada um, de cada si. desconexo. o nosso grande destino é acabar. momentos de pessoas, não personagens, nada de interpretação, era vida. vivos, no seu quadrado como é mesmo o mundo.vivos. o dia mais feliz da sua vida. o tempo pra você. uma lembrança. uma esperança. tem esse quadrado fundado em utopias "é como o sonho de ícaro" ele dizia enquanto se equilibrava tentando voar. Asas a utopia. tempo. "ainda tenho tempo?" tinha. frases se espalhavam espelhando autores famosos. arte. devaneio. espectros. cotidiano. sonho. indignação. liberdade. corpos enfrentando outros corpos, com paixão, como um grito da (in) consciência presa nos olhares atentos. outros feitos desfile de gente antiga falando de lucidez. Começo com os técnicos andando de um lado pro outro, com o tempo descontrolado, era pra ser outra coisa falava de amor,  como aquilo tudo que nos resta ou o que basta. sentido, eu tenho sentido. "navegar é preciso, viver não é preciso".

"Era pra ser outra coisa" - é um espetáculo realizado pela primeira turma do curso de Artes Cências da UFGD, com encenação de Gil Esper...acabei de sair da platéia, me deu vontade de escrever e escrevi...não é sobre, mas com...valeu galera!

de um céu cinza e das poças amareladas que ainda vou cruzar

tem dias que as pessoas me incomodam. dias em que a presença de outros seres me condena, me reprime. tem dias que eu tenho medo do mundo e do futuro.
saí de casa armada. uma ponta acesa na chuva e muitas dores.  conclusões precipitadas e outras nem tanto. eu estava pronta a desprezar qualquer olhar. estou ficando feia. uma carcaça me envolve e me endurece. estou ficando cansada as seis da tarde.
saí, com meu guarda chuva de balas aberto, assim, todo furado das bombas que ele já tem levado. hoje não estava tão frio. mas aquele lugar ainda assim é sombrio e cinza demais no que me diz respeito. eu mesma sou falsamente sóbria e algo me sobra como eu nem imagino. os medos atormentam mas os monstros ainda são moinhos de vento e eu urjo! quase uivo! acho que ainda cabe meus tormentos. eu só fico imaginando se é preciso mesmo me salvar.

Auto-Escola

- Quer um conselho de amigo: abaixa a bolo um pouquinho. Esquece que você faz parte de faculdade e aquelas coisa toda. Faz de conta que aqui você entrou em um outro mundo. Aqui é você não conhece nada.
Abre tua mente, foi o que me disse o professor da auto-escola.
Dizem que gente do signo de aquário tem problemas com regras, normas, hierarquia e que tem manias de saber de tudo e por isso correm o risco de se tornarem excessivamente egoístas e arrogantes. Pois é...já faz um tempo que eu to tentando tirar minha carteira de motorista. Depois de tantas caronas na vida e desse tempo de aula, eu vejo o carro como uma pequena casa. Um canto. Um lugar fechado a quatro paredes que se locomove pelo espaço e que dentro dele você e os demais estão parados, então o  tempo que se passa ali dentro é um tempo de espera enquanto não se chega ao objetivo, e esse tempo, - apesar da concentração que se deve ter no trânsito e no mundo externo ao carro que tem um tempo muito mais rápido, alias, tem vários tempos e fluxos de movimentos intercalados- ainda é um tempo vazio. Ele tá  para ser ocupado por pensamentos e principalmente com interação, diálogos entre as pessoas que estão habitando o auto-móvel naquele instante. Assim  a proximidade das pessoas naquele curto espaço de tempo de cinquenta minutos de aula pode ser grande, porque o espaço é pequeno e de algum modo isolado para as pessoas que estão dentro dele, facilita a intimidade. E eu tenho um instrutor que é no mínimo excêntrico.
Um instrutor, no caso, é uma pessoa que recebe uma grana pra fazer você aprender a obedecer as normas de trânsito. Ele passa mais de oito horas trafegando pela cidade e enquanto isso vai tentando conhecer seus alunos, conversando amigavelmente, fazendo piadas (sem graça) pra que a pessoa não fique nervosa. E quando ele fica nervoso (o que não é tão difícil) ele cantarola as  músicas sertanejas que ouve pelo rádio ou desvia a atenção para um pássaro que voa, ou qualquer outra coisa que estiver pelo caminho que sirva pra desviar a conversa da coisa neurótica que ela pode se transformar.
No começo a gente foi se conhecendo, perguntava sobre com quem eu moro e ele também falou de sua família, descobrimos que os pai dele já trabalhou com um tio meu. Isso dava segurança, pois se eu duvidasse da integridade dele poderia perguntar pra esse tio quem é o tal instrutor. Acho que ele ficou animado com essa possibilidade, com esse elemento de  "confiabilidade" que ele encontrou. Também já conversamos sobre os gostos e modo de vida. Ele já foi um velho divorciado,  que andava pelas festas da cidade, até mesmo nas casas de rock, mas hoje ta casado, diz que é católico (guarda feriados) e a sua mulher já veio com dois filhos na mala. Fazia algumas piadinhas sobre meu modo de dirigir "mas você tem o pézinho pesado heim" que merda! Aquilo me acelerava o sangue, é péssimo quando alguém tenta persuadir uma opinião ruim com uma brincadeirinha jocosa. Isso deixava a coisa muito mais pesada. Fora as piadas machista, claro, não podia faltar. "deixa passar a loirinha, se fosse um macho a gente não deixava não",  isso nem me incomoda tanto, eu pensava "pobrezinho, ainda com essa mentezinha do século passado e se achando engraçado, ou no minimo simpático." Comecei a achar que ele era um fanfarrão, que nem sabia direito o que estava fazendo. Além disso, ele não me deixava errar pra aprender, ele enfiava a mão no volante pra concertar o erro antes mesmo de eu perceber que tinha errado. discutimos sobre isso e ele falou que no "transito não tem tempo pro erro, se errar já era, você está conduzindo uma coisa que pode matar". Tudo bem eu pesava, mas aqui estamos "aprendendo", assim como você tem o seu jeito de ensinar eu tenho o meu de aprender",e ele retrucou que não, o jeito de ensinar é um só que eles aprendem em cursos por ai, que os psicologos falam de tal coisa, mas ele nunca me explicou esse jeito. Alias ele não explica nada. O jeito dele falar é meio ansioso, as vezes fala como uma pessoa que esta numa caminhada acelerada, sabe assim faltando folego e comendo as palavras. As vezes ele respirava e começava de novo a mesma história que não explicava as origens das coisas mas sim queria me fazer decorar o modo operandi do equipamento. Eu não funciono desse jeito, eu só funciono do meu jeito. Comecei a ficar descrente da sua capacidade de me ensinar. Medo, obediência e respeito começaram a se confundir na minha cabeça. Surgiu a arrogância. Os comandos dados não eram obedecidos no ato e eu errava a vontade. nem troco olhares com ele, nada de pedir confirmação. Fiquei só errando até agora. E ele estava agora me ensinando. Acabei aprendendo sim, mas foi mais sobre humildade. Aprender qualquer coisa começa em saber que eu não sei e assumir que alguém sabe mais  do que eu sobre aquela coisa. Ser humilde é entender que você precisa precisa do outro, precisa que este outro te guie por um caminho desconhecido. Eu comecei a enxergar essa falta de "humildade" em mim quando errei e pra todo erro começava a ter um motivo, no fundo tava querendo ter sempre razão. Mesmo assumindo o erro eu procurava achar um culpado que não era eu mesma.  Não adianta! isso é arrogância, porque com isso tô querendo dizer que eu não erro nunca, só erro porque outra pessoa me fez acreditar em algo que me confundiu. Pra mim isso acontece quando a gente julga o outro, condena sua potencia como ser por aquilo que ele nos mostra, um julgamento que acontece pelas condições que a gente mesmo monta. Teve um dia que eu levei um CD pra ouvir durante as aulas. Eu tava cansada daquele sertanejo nojento da radio. Esse dia foi foda! Eu dizia "amplie seus horizontes! Além de ser uma aluna muito simpática eu ainda trouxe coisa nova pra você conhecer! te apresento um novo mundo" ele retrucava "eu já abri  meus horizontes já faz tempo...já, já gostei de rock, de MPB, de axé, de dance, já gostei de sertanejo.. blá bla blá...agora musica pra mim tem a ver com meu humor, quando eu to bravo, eu escuto musca de bravo; quando eu to manso musica de manso; quando eu to com dor de corno eu escuto um sertanejo ..mas isso daí que você ouve é o quê? musica de quê?" e gargalhava ao meu lado.
- Gente de teatro gosta assim de musica experimental, eu falei
- Experimental é!...isso dai é música de gente que gosta de ficar viajando, fumando unzinho, isso que é!
- Também, eu disse.
- Ah essas musiquinhas aí são boas pra dormir. Desse  jeito eu vou cochilar por aqui, ele falava enquanto bocejava, muitas vezes. Outras vezes exclamava "oh um sambinha dos anos 30, esse é bom!" e assim foi, nossa aula atormentando seus ouvidos com uma realidade que ele nunca se deparou "ai ai...é cada coisa que me aparece" ele dizia entre gargalhadas e eu desconcentrada pois tinha provocado o professor que agora nem tava me dando aula, tava era tirando do meu estilo, meu gosto e pior ainda: eu respondia.
Depois disso ele mudou comigo, alguma coisa na vida dele ficou diferente. Agora a gente não conversa mais sobre nós mesmo, e tem pouca ou quase nada de brincadeirinha com a minha pessoa. Sei lá se foi por causa dessa provocação com as músicas, era um CD cheio de musica esquizita, de outros países, incomoda um pouco pra quem nunca foi atras disso. Ou então essa mudança é  por causa da tensão que ta rolando nessas aulas, as tais balizas e estacionamento. Foda! e o que deixa a coisa pior é que eles querem fazer você passar na tal da prova e nada além disso. Pra isso você tem que decorar o esquema: "passa a primeira estaca, olhe a direita, passa as três olhe no retrovisor do meio" não tem qualquer apoio lógico nessas instruções, você apenas deve fazer o que ele tá falando e se dar bem na prova. E eu fico puta com isso! O objetivo nem é você aprender dirigir mas sim fazer você obedecer as leis dos caras que avaliam, os caras do Detran, ou melhor, os representantes do Estado que controlam a conduta de quem quer ir e vir pelo espaço. Esses são os superiores dos instrutores e eles tem metas a cumprir, um numero x de alunos deve passar nos exames mesmo com todas as frescuras dos avaliadores, caso não atinjam esse numero de aprovados quem sofre as consequências é a empresa da auto-escola, ou seja, o patrão, o que causa uma dupla pressão na cabeça do instrutor- estado e mercado! sempre eles. Uma merda! o jogo tá em todo lugar! esse esquema é totalmente brasileiro e abre brechas pra dar "jeitinhos" e criar "macetes". Mas eu to aprendendo! não dá pra ser do meu jeito, mas tem que ter um jeito. Sou brasileira po! E também sou aquariana! Ainda bem que não sou taurina ou libriano, se não já ia apelar pra teimosia! por enquanto to apenas tentando a humildade, o saber que não sei e que não sei de verdade, não um não sei por estar confusa com o que sabe e não estar calma e plenamente consciente pra por as coisas nos seus lugares e achar um sentido. É foda quando a gente percebe que está agindo como aqueles que a gente condena, no caso, com arrogância do diploma universitário, e olha que eu ainda nem tenho esse troço! Nem acho que a minha arrogância venha daí, é mais de mim mesma, com ou sem diploma me falta humildade e liberdade de mim. Nessas horas eu lembro do Lobo da Estepe, do Hermann Hesse. Eu enrolei uns quatro meses ou mais pra terminar de ler esse livro e ultimamente ele tem feito bastante sentido pra mim....mas isso é outra estória. Por hoje chega, já tá ficando chato e tá frio, meus dedos estão duros.
se você prometer não me ligar no dia seguinte
eu posso voltar a te encontrar
se comprometer a me esquecer
transforma a lembrança do meu cheiro em mais uma dose de fortim
ou conhaque pra curar a ressaca
eu não tenho nada planejado dessa vez
alguma coisa no sorriso de alguns caras
me levam a lugares desconhecidos de mim mesma.
se você me procurar eu vou fujir.
se você me ligar eu vou abaixar o tom de voz e
vou dizer que não
escrevo
entrelinhas travadas
o perfume e a loucura
eu to procurando um motivo
pra não sentir
tuas mãos 
no meu corpo
buscando motivo pra me encaixar
eu aqui
usando palavras
barricadas
mandei mensagem no celular
você sabe
confusão não é desculpa
é culpa
confessa
se não sente...
já disse que quero ser tua amiga
mas
amigos não cancelam cervejas num feriado
grande merda essas palavras com ponto final.

Sofia


A lua, rua, neblina em dezembro. 
A cara de Dona Sofia: distância no olhar e pinta de superioridade.
Ela quer saber, ela quer saber de todas as coisas. 
Não é apenas uma questão de informação, não. 
Ação-reagente-reação.
Ela quer saber o porque as pessoas se unem, se olham, se beijam, se amam, se juntam, se constroem e acabam.  Ela abre bem os seus olhos, persegue cada gesto,  palavra, som
Ela não sabe
Não sabe resolver a equação que se movimenta nos olhos apressados em busca de consolo, atenção. 
Não tem segredo, mas ela não vai deixar de procurá-lo.
Não tem mistério, mas ela vai inventá-lo.
Existe algo em ser humano que não sai da sua cabeça. 
Existe algo em crescer, em saber que existe dor pelo caminho e que não é permitido parar
Continua.
Não pode sair se mostrando quando esta vazia. 
E ainda assim, é incapaz de desaparecer. 
Ela que não cria metáforas, se esconde simplesmente.
Mente.
Poder e culpa, caminhando lado a lado, braços dados, passeiam na praça, olham para o jardim. 
Conceitos.
Sofia entende:  Deus é o cara que deu nome as coisas.
A terra gira. O sangue circula. Palavra é ação e caminhar é vida.  









O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consiência de si mesmo. É o momemnto que você se encontra com o que você representa para o mundo. "Ah, então é assim que eu sou." Repare que em  frente do espelho a gente sempre faz uma careta. É porque achamos que somos diferentes daquilo que realmente somos. Então, a prícipio, naõ acreditamos muito naquela imagem. Até achamos  graça. Depois a examinamos direito, e viramos de perfil, de costas, mexemos o cabelo e dizemos: "olá, como vai?" Espelho sempre foi uma coisa importante na minha vida. Eu adoro me ver num espelho, apesar de sentir certa vergonha se houver outra pessoa do lado. . Em banheiro de rodoviária, por exemplo, sempre finjo que estou espremendo uma espinha, quando quero me olhar por mais tempo no espelho. Sempre que vou a uma festa e estou bêbado ou chapado, me tranco no banheiro e fico horas me cagando de rir na frente de um espelho: "olha lá você, safado. Está doidão".

de: Feliz Ano Velho- Marcelo Rubens Piva